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12.Mar - Itepa: aula inaugural Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021
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Itepa: aula inaugural Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

Tema: Fraternidade e diálogo: compromisso de amor

Lema: “Cristo é a nossa paz:do que era dividido fez uma unidade”.(Ef 2,14a)


  1. Pontos de partida e lugares de fala

As Campanhas da Fraternidade Ecumênicas aparecem na virada do milênio 2000, como um ato de unidade, na esperança de iniciar o novo milênio dentro de uma práxis promotora da PAZ (no sentido de Shalom, isto é, paz com justiça). Com o tema: Novo Milênio sem Exclusões e o Lema: Dignidade Humana e Paz. O tema PAZ esteve explicitamente mencionado em 2005  (Solidariedade e Paz -Felizes os que promovem a Paz), e mesmo naquelas que mencionavam esta questão no tema ou lema o faziam no objetivo, como é o caso da CFE de 2010, que tendo como lema: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mt 6.24)” e como tema: “Economia e Vida” o Objetivo geral afirmava a necessidade de: “colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz”. Já em 2016 a ênfase esteve sobre a “justiça”, com o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24) e o tema “Casa comum, nossa responsabilidade”. Chegado a esta CFE de 2021: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”.

 

Esta constatação inicial -a meu ver – indica uma percepção ecumênica de a paz com justiça, ou justiça que constrói a paz, é uma tarefa a ser feita no GRANDE MUTIRÃO DA UNIDADE NA DIVERSIDADE. Embora seja claro de que toda Campanha da Fraternidade é ecumênica, pois se propõe ir além dos limites institucionais da Igreja Católica Romana, ou até das tradições cristãs, o fato de ser CONSTRUÍDA ECUMENICAMENTE lhe concede uma consistência ainda maior e, portanto, uma práxis mais desafiadora para todas as pessoas, instituições e visões envolvidas em seu planejamento e execução. O aprendizado das CFE é o aprendizado do caminho da paz com justiça, e como é difícil!

 

Outra atitude que vem marcando o “Movimento Ecumênico” de forma geral, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (como um dos espaços de articulação institucional), as Semanas de Oração pela Unidade Cristã (que acontecem todos os anos na semana anterior a Pentecostes, por iniciativa do CONIC) e as CFE que tem acontecido, mais ou menos cada 5 anos, por iniciativa conjunta da ICAR e as demais igrejas e organismos membros do CONIC) é a necessidade de incluir o DIÁLOGO INTERRELIGIOSO. Essa necessidade vem da mão da percepção da CASA COMUM, que aparece explicita, como consequência direta da Encíclica Laudato Si de 2015, onde fica claro que o futuro de nosso espaço planetário e da vida que nele reside não é uma tarefa apenas das Igrejas Cristãs, mas de todos os saberes religiosos e de todas os saberes e sensibilidades humanas.

 

Quando chegamos a CFE de 2021 nos deparamos com uma humanidade que, além de precisar se unir em mutirão para preservar a integridade da vida na Casa Comum, precisa superar o ódio, a polarização, o desprezo, estimulado por ideologias xenofóbicas, racistas, fascistas, machistas, homo-lesbo-trans-fóbicas, colonialistas, envenenadoras e destrutoras do meio ambiente, que pareciam, pelos menos em parte superadas. Muitas destas atacando diretamente, através de uma leitura e prática fundamentalista da fé cristã, outras religiões, em especial aquelas afro-diaspóricas ou de matriz africana. Assim, mais uma vez fica claro que o diálogo não pode ser fechado, para dentro, mas aberto e deixando falar, em primeiro lugar as pessoas que foram, e são, caladas por atitudes supressivas, opressivas e exclusivistas.

 

Os objetivos da CFE mostram-se autocríticos em relação a nossa própria fé – principalmente no segundo e terceiro itens: “Denunciar as diferentes violências praticadas e legitimadas indevidamente em nome de Jesus” e “denunciando a instrumentalização da fé em Jesus Cristo que legitima a exploração e a destruição socioambiental” – elemento necessário para a DESCONTRUÇÃO DA CULTURA DO ÓDIO esta nova CONSTRUÇÃO EM MUTIRÃO de uma CULTURA DA PAZ – como diz o sexto objetivo: “Promover a conversão para a cultura do amor, como forma desuperar a cultura do ódio”.

 

O caminho a ser percorrido, caminho de Emaús, onde depois da tragédia se pensava em “desistir” e após o diálogo autocrítico, reflexivo e celebrativo se retoma a caminhada da resistência (Lucas 24.13-34). Caminho que é delineado nos demais objetivos, salientando: “a beleza do diálogo como caminho de relações mais amorosas” (1º); “superar as desigualdades” (4º); “animar o engajamento em ações concretas de amor ao próximo” (5º), “fortalecer a convivência ecumênica e inter-religiosa” (7º); “Estimular o diálogo e a convivência fraterna como experiênciashumanas irrenunciáveis, em meio a crenças, ideologias e concepções, em um mundo cada vez mais plural” (8º); “compartilhar experiências concretas de diálogo e convíviofraterno” (9º).

 

Destaquei os primeiros porque, para mim, são condição para os outros. Vivemos em um tempo que, sem desenvolver a capacidade de sermos pessoas autocríticas em relação a nossa própria fé cristã (seja no seu desenvolvimento histórico quanto em suas expressões contemporâneas), não poderemos realizar os outros objetivos e, portanto, não será possível o diálogo fraterno e a real desconstrução da cultura do ódio para a construção da cultura da paz.

 

Digo isto a partir de diversos lugares de fala que vão desde a experiência com a pastoral indigenista, ou, com a presença solidária junto aos povos indígenas (especialmente o Guarani) por mais de 20 anos, quanto como militante do movimento ecumênico e inter-religioso no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), no CONIC RS, no Grupo de Diálogo Inter-religioso de Porto Alegre (DIRPOA), no Fórum Inter-religioso e Ecumênico do RS (FIRE) e na Pastoral Afro Abraço Negro da minha diocese. Devemos superar o discurso apologético dogmático e abraçar autocraticamente a apologia da vida, da justiça e da paz a partir de nossa práxis de fé concreta.

 

1. VER, JULGAR, AGIR E CELEBRAR


O texto base propõe este plano de desconstrução e construção bem conhecido na caminhada da teologia da libertação, sendo que o celebrar, antes de relegado, assume um lugar de igual com as outras três etapas. Realmente, este caminho tem se mostrado eficaz e resgata o princípio básico que “primeiro é a Vida, depois a Bíblia”, isto é, a fé emerge da Vida e se volta para a Vida, como afirma a introdução do Evangelho da comunidade de João “Nele estava a vida e a vida era a luz da humanidade” (João 1.4), ou ainda, na narrativa do “Bom Pastor” ou da “Porta”, “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (João 10.10).

 

2.1 VER


Em um curso que assisti recentemente sobre a “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire e o “Capitalismo como Religião”, com Jung Mu Sung, como tema “diálogo e dogmatismo capitalista” (podem acessar no Facebook ou Youtube, em “Teologia e Capitalismo como Religião), se afirmava que para haver um verdadeiro diálogo tem que se identificar um problema comum, pois só assim podemos distinguir teses, antíteses e sínteses. O VER é isso. Não vamos ver todos os problemas, mas aqueles que se apresentam mais evidentes em nossos contextos ou lugares de fala e de vida (como afirmamos na exegese bíblica, em nossos “lugares vivenciais”). Então sim, podemos buscar o diálogo que não queira encontrar – e aqui é de novo minha percepção – “soluções”, mas “saídas” ou “êxodos” (do grego “ex” – para fora – e “rodos” – caminhos).

 

Nem sempre saberemos para onde queremos ir, aí vale aquela frase atribuída ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, sobre o horizonte, que ele atribui a um filósofo argentino anônimo: “Para que serve a utopia? A utopia é como o horizonte, serve para caminhar” ou a poesia da música, eu sei um caminho para o sol: “eu sei um caminho para o sol, e não sei se o sol existe; e se não existe não importa, o importe é o caminho”. Portanto, o VER deve dar-nos duas coisas: o ponto de partida (formulação do problema) e a direção (hipóteses, sonhos, utopias, horizontes). Assim desconstrói-se a paralisia e o medo gerado pela tragédia da violência e da morte e reconstrói o caminho do reencontro, o diálogo e a partilha.

 

2.2 JULGAR


Até hoje estamos buscando uma palavra melhor para esta etapa. “Julgar” parece um tanto pedante e orgulhoso. Na espiritualidade cristã usa-se “discernir”, ou seja, “distinguir” entre uma coisa e outra, entre uma possibilidade e outra e encontrar os princípios que nos guiam na caminhada. Citando o texto base: “Esse reconhecimento aconteceu apenas quando ele“se pôs à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu” (Lc 24.30). O texto bíblico de Efésios (2.14a), ao proclamarque Cristo é a nossa paz, é a luz que ilumina nossos caminhos, indicaque a fé em Cristo nos ensina a trilhar caminhos de coexistência emsociedades divididas pelos muros das intolerâncias”.

 

Julgar ou discernir é saber de que estão feitos os muros, a distância dos abismos, e preparar a ferramentas para derrubar muros e construir pontes! Essas ferramentas estão na leitura popular e comunitária da Bíblia, na caminhada solidária das comunidades e movimentos populares, nas tradições e saberes indígenas do Bem-Viver e na resistência e comunhão com as forças da natureza que encontramos, também, nas religiões afro-diaspóricas e em outras matrizes religiosas que apresentam suas percepções da Casa Comum.

 

2.3 AGIR


Nada começou conosco, nada termina conosco, e já no julgar vimos alguns princípios ou ferramentas de desconstrução e construção, mas agora trata-se de colocar em prática ou encontrar novas práxis. Porque “novas”, bem já advertiu Jesus sobre isso! “Nem secoloca vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas coloca-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam” (Mateus 9.17). Se ainda temos problemas, como estes listados acima, é porque nossa práxis (anterior e atual) deu lugar para que existissem (autocrítica) ou não consegui encontrar saídas (crítica) e precisamos, juntes, encontrar novos “êxodos” e caminhar!

 

2.4 CELEBRAR


Celebrar é geralmente relacionado a vitória, como no Êxodo quando Miriam e as mulheres com pandeiros e danças celebram o afogamento do exército opressor e, portanto, sua libertação. Ou quando no Livro de Apocalipse, resgatando a profecia da comunidade Terceiro Isaías, se celebra o “Novo Céu e a Nova Terra” (Is 65.17 e Ap 21.1). Vejam que a primeira é de fato a celebração de uma vitória histórica, mas a segunda e a celebração de uma vitória do esperançar. Uma é a vitória do “já” (em termos do reinado anunciado por Jesus) e a outra do “ainda não”. A Monja Kokai )Zen Budista do Fórum Inter-religioso e Ecumênico do RS) ontem, no vídeo do Fórum Inter-religioso disse “não nos venham com flores, não temos nada a celebrar nem a comemorar, acabamos, de nessas últimas 24 hs de ter 1910 pessoa mortas pela COVID”. É verdade! Mas podemos celebrar, com o próprio vídeo faz, que estamos unidas, unidos e unides, na luta pela vida e que sabemos que se continuarmos assim juntes venceremos!

 

3. VOLTANDO AO LUGAR DE FALA


Estamos em outro lugar de fala! O lugar da academia, da ciência, do pensamento acurado sobre a realidade e sobre as possibilidades que nos oferece a existência humana! Hoje comecei o dia dando aula na ESTEF de Introdução à Bíblia e convidei a turma a acompanhar esta Live e responder depois, no Fórum do MOODLE: o que a leitura e interpretação da Bíblia tem a ver com tudo isso?

 

Viver esta CFE neste lugar nos obriga a VER, a JULGAR e AGIR e a CELEBRAR em relação ao que vivenciamos e construímos neste lugar e como realmente capacitamos, ou não, pessoas para o diálogo fraterno, para a cultura da paz, para a justiça e a dignidade de todas as pessoas sem distinção ou exclusão, para parar de construir e fortalecer muros e começar a derrubar muros e fazer pontes.

 

Sim a CFE passa por nós como comunidades de ensino-aprendizagem e como pessoas desconstrutoras e reconstrutoras de saberes.

 

Bispo Dr. Humberto Maiztegui Gonçalves


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