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28.Jul - Ganância
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Ganância

“Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Foi o apelo de um anônimo saído do meio da multidão. A reivindicação por justiça proporcionou a Jesus abrir uma rica reflexão sobre a relação do homem com os bens materiais. (Eclesiastes 1,2;2,21-23, Salmo 89, Colossenses 3,1-5.9-11 e Lucas 12,13-21). Jesus responde à reivindicação com uma pergunta, um tanto enigmática: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” Não dá uma solução para o caso particular. Porém, não foge do problema e direciona a resposta à origem dos problemas de herança. “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância”. A ganância pelos bens produz uma infinidade de conflitos e injustiças no ambiente familiar e social.


Os irmãos que repartem uma herança têm em comum os pais. Eles se originam da mesma fonte vital que lhes proporcionou o maior dom: a vida. Quando ocorre um conflito por causa da herança o amor pelos pais e pelos irmãos é substituído pelo amor as “coisas”. Esquece-se dos pais e briga-se para agarrar as coisas. O que antes unia agora divide.


A seguir, Jesus alerta a todos: “Cuidado contra todo tipo de ganância”. A ganância se apresenta com muitas facetas e todas elas revelam egoísmo. A parábola contada por Jesus está repleta de raciocínios e ações na primeira pessoa: “O que vou fazer? Já sei o que fazer. Vou derrubar, vou guardar, poderei dizer a mim mesmo”. O egoísmo faz centralizar todos os raciocínios e ações nos interesses pessoais egoístas.


A segunda marca da ganância é depositar a confiança e a segurança unicamente nas coisas, como também nelas colocar o sentido da vida e das relações sociais. “Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!”. Raciocina o personagem ganancioso da parábola.


Uma das necessidades fundamentais da vida humana é a segurança, tanto física quanto de bens para garantir o amanhã. Faz-se necessário planejar e tomar as medidas necessárias, isto manifesta sabedoria humana e providência. O desequilíbrio acontece quando toda segurança é calcada na ganância egoísta e sobre bens materiais. A fragilidade humana e a morte não desaparecem “com a abundância dos bens”. O que aparentemente é tão seguro torna-se fonte de inquietação e angústia.


Os ensinamentos do Evangelho são enriquecidos e problematizados com o livro do Eclesiastes. Diante de várias perguntas e conclusões o autor sagrado conclui dizendo: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Na nossa linguagem poderíamos dizer: “Tudo é uma bolha de sabão”. À primeira vista, parece que o Eclesiastes nega um sentido para a vida, a bondade da criação e a providência de Deus. O sábio, que escreveu este livro, é um homem que se pergunta e se esforça para entender o modo contraditório que se vive. É um olhar crítico sobre o mundo que vive de aparências e mentiras.


De fato, para um ganancioso “que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou”, é vaidade. Porém, o cristão, alerta São Paulo, deve “esforçar-se por alcançar as coisas do alto, aspirar as coisas celestes e não às coisas terrestres”.  O cristão terá muita alegria em deixar como herança para a próxima geração uma abundância de bens espirituais, culturais, sociais e materiais. Porque sua vida não foi regida pela ganância, mas pela fraternidade, pelo desejo de dividir os bens, pois tem um Pai comum.


 


Dom Rodolfo Luís Weber

Dom Rodolfo Luís Weber

O arcebispo metropolitano de Passo Fundo, dom Rodolfo Luís Weber, escreve semanalmente artigos de opinião sobre temas diversos e latentes em nossa sociedade.

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