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20.Nov - Celebrar o dia da Consciência Negra: uma necessidade política
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Celebrar o dia da Consciência Negra: uma necessidade política

 


Povo negro quer formar uma roda diferente, onde brilha a alegria e a fé da nossa gente (Lúcia Felício e Gilio Felício)


Estamos na semana da Consciência Negra que circunda uma data muito significativa para a população afro-brasileira: a memória da morte de Zumbi (1695), liderança do Quilombo dos Palmares. Em um país com histórico de negação do papel fundamental movimentos e lideranças populares na democratização, especialmente dos negros, como é o caso do Brasil, é alvissareiro demarcar esta data. É também a demarcação de uma luta política árdua e necessária. No último pleito eleitoral foi noticiada como grande novidade a eleição de alguns candidatos negros para prefeituras e câmara de vereadores. Contudo, noticiar este fato como “novidade” em nosso país deveria causar certa estranheza. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE) a população afro-brasileira é maioria no Brasil conforme o critério de auto definição. Sendo maioria, por que tão baixa representatividade nos cargos eletivos?


A celebração do dia da Consciência Negra torna-se também um ato político se assumirmos a leitura de política como “arte de bem organizar a vida dos povos vivendo em uma nação” (Bastos Ávila, 1993, p. 364) ou como exercício caritativo em vista do bem comum (cf. Papa Pio XI). É agir político assinalar no calendário nacional a memória de Zumbi dos Palmares. Ela não pode ficar esquecida e não pode ficar descrita em discursos e escritos como algo de menor importância na História. A celebração da memória de Zumbi dos Palmares implica em lembrar a presença dos negros na História do Brasil, a luta contra a escravidão e o legado cultural que deixaram.  


Apesar das controvérsias e tentativas de contrapontos a esta narrativa, sabemos que o Brasil tem uma dívida histórica para com a população negra devido aos quase três séculos de escravidão. A espinha dorsal da economia brasileira, até 1888, era o trabalho escravagista. Os negros não recebiam senão a casa (senzala), alimentação frugal e roupa para produzir riquezas. Começou com a produção de açúcar a partir das lavouras de cana e migrou para a mineração ou outras atividades econômicas, dependo da região.  No Rio Grande do Sul destacava-se a produção de charque.


Zumbi e outras lideranças procuraram organizar os negros em vista do enfrentamento do sistema. O movimento Quilombola foi uma das iniciativas promissoras nascidas no tempo da escravidão. Não foi um projeto fácil. Estavam lutando contra a instituição escravagista, base econômica do Brasil no período colonial e imperial. O movimento Quilombola era visto pelo sistema como uma ameaça econômica e social e, por isso, se iniciou a perseguição a Zumbi e outras lideranças. Era necessário destruir o Quilombo dos Palmares pelo fascínio que exercia como símbolo da luta contra a escravidão.  Quando se alcançou o objetivo, o feito foi motivo de festa. A perseguição se estendeu a outras lideranças nas diferentes regiões do Brasil. Infelizmente, a historiografia ainda é pobre quanto ao levantamento de dados. Assim como Zumbi, muitos líderes reagiam ao projeto escravagista utilizando-se de diferentes metodologias.


Zumbi e os quilombolas lutavam contra a escravidão, contra o direito de um homem ter poder sobre o outro, legitimado pelo Estado. Naquele tempo a luta pela dignidade humana era considerada afronta à lei, uma vez que esta fora formulada por homens brancos defensores da escravidão. Entretanto, a organização quilombola não foi a única iniciativa dos negros no enfrentamento da escravidão. As irmandades e confrarias também ocuparam um papel significativo, sobretudo na compra da liberdade dos negros escravizados. Eram as diferentes formas de enfrentamento da escravidão. 


A luta de Zumbi, e de tantos outros líderes negros, enfrentou diversas resistências. Primeiramente foi tratada como ato ilegal, como expresso acima, e posteriormente com certo velamento da sua importância histórica. Este velamento foi aliado ao menosprezo das formas de expressividade do povo negro, das quais destacamos a cultura e a religião. A cultura de origem afro-brasileira, mesmo estando presente nas diferentes regiões do Brasil, foi vista como “subcultura”, uma vez que a referência era a vertente cultural de origem europeia. Já em relação ao exercício do culto religioso, este sempre foi visto com desconfiança e, muitas vezes, proibido.  


 Todavia, o broto da vida sobrevive à aridez do solo. Hoje é impossível desconhecer os traços afros na linguagem, na alimentação, na música e tantas outras manifestações culturais. A religiosidade de matriz africana se ressignificou e sobreviveu. Nas periferias é o espaço sagrado de renovação da esperança e do alento em uma sociedade ainda racista e preconceituosa.


Além da vertente originária, a raiz religiosa africana penetrou também na tradição cristã, enriquecendo-a sem negar os fundamentos tradicionais. Como reconhecem os bispos reunidos na Conferência de Aparecida, os afro-americanos se caracterizam, entre outros elementos, pela expressividade corporal, o enraizamento familiar e o sentido de Deus (DAp 56). Busca-se reforçar o compromisso da Igreja Católica, enquanto aliada da causa. Assinalamos o pedido expresso aos bispos do Brasil pela abolição da escravidão, de autoria do Papa Leão XIII na Encíclica In Plurimis (1888). Outra manifestação documentada é o texto final da Conferência de Aparecida, onde se lê o compromisso dos bispos latino-americanos de, pela prática pastoral, contribuir para que as feridas culturais, injustamente sofridas na história, não absorvam nem paralisem o dinamismo do povo negro nos novos cenários de vida (cf. DAp 533).


Nesta trajetória secular de luta e resistência é importante celebrar o Dia da Consciência Negra. Compreende-se que a negritude, herança étnica e política dos antepassados, é anterior à escravidão moderna. Superado este crime, cabe dar outros passos. As terras brasileiras não são mais o “exílio dos negros”. Agora é a nossa pátria! Se no passado a chegada aqui se deu aliada à perda da liberdade, agora a presença se caracterizará pela luta pelos direitos de cidadania teimosamente negados mesmo que alguns estejam amparados na lei.


Não deixemos de celebrar este dia como memória histórica e como consciência de que existe muito a fazer.  


 


Padre Ari Antônio dos Reis e Joelmar de Souza

Padre Ari Antônio dos Reis e Joelmar de Souza

Padre Ari é pároco na paróquia Nossa Senhora Aparecida (Catedral) em Passo Fundo e professor na Itepa Faculdades. Joelmar é Seminarista da Etapa da Configuração da Arquidiocese de Passo Fundo; acadêmico do VIº semestre do curso de Bacharelado em Teologia (ITEPA Faculdades).

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