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16.Abr - C'est fini la utopia?
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C'est fini la utopia?


Francisco Amaral e Samuel Rosa são compositores da canção “Pacato Cidadão” interpretada pela banda brasileira Skank. “Pacato Cidadão” fora também título de outra canção creditada à Luiz Gonzaga Da Costa Filho (Gonzaguinha). Os meninos mineiros, o Skank, lançou seu segundo álbum musical, em 1994, intitulado Calango. “Pacato Cidadão”, compondo este álbum, traz uma reflexão crítica à sociedade brasileira através da música e da arte; ademais a expressão “calango” representa uma dança típica do norte de Minas Gerais.


Gonzaguinha referia-se ao “Pacato Cidadão” como quem, sem perceber, “deixa de ser gente” e na apatia do dia-a-dia torna-se “mais um bicho na rua pra vencer qualquer batalha”. Mais! “Um pai de família: pacato cidadão. Que não nota que o filho só ouve e repete, simplesmente, a palavra Não”. O Skank, manifesta-se ao(s) sujeito(s), cantando a realidade como um alerta: “Oh! Pacato Cidadão! Eu te chamei a atenção. Não foi à toa, não. C’est fini la utopia. Mas a guerra todo dia. Dia a dia, não”. Inquieta, a saber, a proposição francesa, não? C’est fini la utopia; será?


A Civilização do Amor é sonhada e construída, diuturnamente, pelo protagonismo e a articulação organizada de pessoas de boa vontade, compreende? Milton Nascimento e Fernando Brant ao compor “Coração Civil” expressam: “Quero a utopia, quero tudo e mais [...]. Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida. Eu viver bem melhor. Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar!” A utopia é uma construção social possível; enquanto realidade concreta, constitui-se pelos sonhos passíveis de efetivação que, por assim dizer, transcendem o indivíduo, porque são aspirações coletivas, ao mesmo tempo em que ganham base de fundamentação em possibilidades reais – são “utopias concretas” (Ernst Bloch). A utopia torna-se, de maneira ampla, uma sociedade digna e plena para compartir a cidadania dos sujeitos cidadãos, livres, seguros e vivos. Também os pacatos? Sim! Todas as pessoas tem direito e dever de participar na edificação e sustentabilidade de uma comunidade civil cidadã.


O conceito de cidadania provém da Grécia antiga e liga-se ao exercício do viver na civitas (termo em latim), isto é, na urbe, cidade. O cidadão, a cidadã, na alteridade humana, hoje, convive na cidade ou no campo, no Estado, na sociedade, portanto, com seus direitos e deveres civis, políticos e sociais, conquistados ao longo da história. Resumidamente, a cidadania é o conjunto de direitos da pessoa que vive em sociedade e o seu pleno exercício pela participação social. Tais direitos, implicam-se aos compromissos, ou seja, os deveres. O exercício cidadão compreende-se na relação dialética participativa de direitos e deveres em construção, processual e permanente, na esfera societária.


Compreende-se, desta forma, a propositiva Semana da Cidadania (SdC) apresentada, anualmente no mês de abril, pelas Pastorais da Juventude (PJ’s) como atividade permanente de reflexão e ação à sociedade brasileira, quiçá, à América Latina. A SdC enfatiza a dimensão sociopolítica no construto de formação integral das PJ’s do Brasil (PJMP, PJE, PJR, PJ), no que diz respeito a ação missionária e apostólica de centenas de milhares de jovens, meninas e meninos, ligados a Igreja Católica que professam sua fé e testemunham o projeto do Reino de Deus, tendo Jesus Cristo como referência centralizadora. A espiritualidade profética e testemunhal das PJ’s é Cristocêntrica, salvaguardando o contexto e a realidade histórica das pessoas envolvidas.


A primeira Semana da Cidadania, propondo o tema: “você não vai ficar de fora! Faça seu título e vote consciente”, aconteceu em 1996 e, desde então, apresenta temas referentes a vida juvenil e sua relação com questões sociais, saúde, democracia, políticas públicas, meio ambiente, etc. Revisitando a história, poder-se-á verificar, por exemplo que, em 1999, a SdC trouxe à pauta de debate - “Desemprego: Juventude sem sonho, país sem futuro!” O tema gerador de 2010 era: “Trabalho para vida, não para morte!” Agora, em sua 25ª edição, neste 2021, a SdC traz para roda de conversa a temática: “Juventude e a luta pela não precarização do trabalho, em defesa de uma vida digna”. A inspiração bíblica nasce a partir do primeiro testamento: “O meu desejo é a vida do meu povo” (Est 7,3).


Acredita-se, portanto, que a juventude enquanto ser político na sociedade, se constrói cidadã passo-a-passo, articulando projetos e edificando ações críveis em prol do bem comum, à luz do Evangelho, tais como a Semana da Cidadania de 17 a 24 de abril. Conscientes da realidade atual brasileira e perante a inviabilidade de realizar atividades presenciais, a SdC articula-se via online; razão do cuidado com a saúde e a vida, evitando aglomerações.


O Skank, em “Pacato Cidadão”, canta um esperançar: “e tracei a vida inteira planos tão incríveis. Tramo a luz do Sol. Apoiado em poesia e em tecnologia. Agora à luz do Sol.” A SdC é um dos pequenos, mas significativos sinais, para verbalizar, refletir e agir no despertar do “Pacato Cidadão” presente em cada pessoa; mover-lhe(nos) da inercia, ao criar oportunidades de diálogo, fazer memória, celebrar a caminhada histórica, gestar processos na construção de direitos, de políticas públicas, etc.


Há jovens, desde outrora, protagonizando esperanças, à luz de Cristo – Luz do Mundo –, por acreditar que a utopia não acaba nunca. Canta-se, assim, com austera e plena voz: “Un nuevo sol se levanta, sobre la nueva civilización que nace hoy! Una cadena más fuerte que el ódio y que la muerte, lo sabemos: el caminho es el Amor!” A autoridade utópica juvenil é válida por ser capaz de pôr os pés, descalços, na margem do rio da vida. Verbalizar a dor é uma virtude saudável ao entendimento do existir. Muitas vezes, por não saber a retórica da verbalização, canta-se a dor e a música liberta-nos à vida. C’est fini la utopia? Acabou a utopia? Não, a utopia não morre! Ela vive, pois, Christus Vivit e n’Ele, vivemos, nos movemos e existimos! “Somos cidadãos do reino, do reino de Jesus de Nazaré!” Juntos(as) nutrimos utopias! “Um novo sol se levanta sobre a nova civilização que hoje nasce. Uma corrente mais forte que o ódio e a morte, nós sabemos: o caminho é o amor!” (Jo 14,6).



Padre Leandro de Mello

Padre Leandro de Mello

Pároco na paróquia São Francisco de Assis e Assessor da Pastoral da Juventude

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