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17.Jan - OS SINAIS DO TEMPO PRESENTE
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OS SINAIS DO TEMPO PRESENTE

«Quanto aos tempos e aos momentos, irmãos, não precisais que vos escreva. Com efeito, vós próprias sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor chega de noite como um ladrão» (I Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 5, 1-2)


Com estas palavras, o apóstolo Paulo convidava a comunidade de Tessalônica a que, na expectativa do encontro com o Senhor, permanecesse firme, com os pés e o coração bem assentes na terra, capaz dum olhar atento sobre a realidade e os fatos da história. Assim, embora apareçam tão trágicos os acontecimentos da nossa existência sentindo-nos impelidos para o túnel obscuro e difícil da injustiça e do sofrimento, somos chamados a manter o coração aberto à esperança, confiados em Deus que se faz presente, nos acompanha com ternura, apoia os nossos esforços e sobretudo orienta o nosso caminho. Por isso, São Paulo não cessa de exortar a comunidade a vigiar, procurando o bem, a justiça e a verdade: «não durmamos (…) como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios» (5, 6). É um convite a permanecer despertos, a não nos fechar no medo, na dor ou na resignação, não ceder à dissipação, nem desanimar, mas, pelo contrário, a ser como sentinelas capazes de vigiar vislumbrando as primeiras luzes da aurora, sobretudo nas horas mais escuras.




O TEMPO PRESENTE


Não tenho dúvida alguma que o momento que vivemos está sendo caraterizado por um fenômeno que eu defino como narcisismo sociopolítico religioso. A expressão disso é a polarização crescente de ideias, de atitudes, de fatores que denotam a grande incapacidade de diálogo, da própria compreensão dos fatos, e por isso o ego, cada vez mais forte e descontrolado, alimenta a convicção de que só eu estou certo, que as minhas ideias estão certas, e que também a leitura que eu faço é a correta e deve predominar. Isso desperta os impulsos mais primitivos de defesa e, se não refletidos, de ataques impensados.




Esta situação de intolerância narcisista e antidemocrática teve diversas expressões nestes últimos tempos e foi habilmente explorada por alguns meios e por pessoas ligadas aos fundamentalismos mais diversos, com o intento de ter vantagens e retornos pessoais usando para isso enganosos discursos patrióticos, manipulando símbolos e atingindo com o uso de fantasmas ideológicos o próprio imaginário religioso e as pessoas com uma lavagem cerebral sem precedentes criando assim um conflito e baderna social cujos resultados podemos constatar na invasão e depredação dos três palácios que representam a ordem democrática constituída.




Raramente os indivíduos e a sociedade progridem em situações que geram tamanho sentimento de derrota e amargura: na realidade, o mesmo enfraquece os esforços empreendidos pela paz e provoca conflitos sociais, frustrações e violências de vários gêneros. Neste sentido, a pandemia parece ter transtornado inclusive as áreas mais pacíficas do nosso mundo, fazendo emergir inumeráveis fragilidades.




UM OLHAR RESTAURATIVO


Chegou a hora de resgatar o domínio do que se perdeu: começar, recomeçar e oferecer a possibilidade da responsabilização – consciente, racional e coletiva – para não incorrer no risco cruel da punição pelo desejo de fazer sentir dor.


É hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar, como indivíduos e como comunidade… Já tive oportunidade de repetir várias vezes que, dos momentos de crise, nunca saímos iguais: sai-se melhor ou pior.




O sistema prisional evidencia nossa falência como sociedade civil, como atividade humana, como agressão à vida. A prisão é pior amostra de pessoas desconectadas pelo ser na sua integralidade e na sua dignidade. A prisão não “corrige”, não resolve nada: ela só degenera!




Aprendemos também que a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização não só foi excessiva, mas transformou se numa intoxicação individualista e idólatra, minando a desejada garantia de justiça, concórdia e paz.




Quando não vislumbramos saídas ou soluções, presumimos que, para resolver uma situação, qualquer coisa serve. E nos vemos desejando ao outro – ao que pensa diferente –, o que não queremos para nós.




Com muita frequência, neste nosso mundo que corre a grande velocidade, os problemas de desequilíbrios, injustiças, pobreza e marginalizações alimentam mal-estares e conflitos, e geram violências e mesmo guerras.




Neste momento necessitamos recorrer com urgência ao respeito mútuo e à empatia para neutralizar a violência pela qual foi tomado o povo brasileiro. Defenderemos a justiça com a razão, com o diálogo e com a restauração. Não podemos admitir que armas, violências e punições, enfim, tudo o que está acontecendo, levem à morte e à dor, seja de qual lado nos posicionamos. Devemos erradicar dos corações a vingança e o desejo de represálias.




É a hora de ampliar o foco, agir com coerência e, juntos como nação, adentrarmos nos cárceres do país, atualmente com quase um milhão de pessoas reclusas, sem contar crianças e familiares fora dos muros. Reconhecer que aí não há soluções; pelo contrário, são fontes de mais miséria e degradação da vida.




Certamente, tendo experimentado diretamente a fragilidade que caracteriza a realidade humana e a nossa existência pessoal, podemos dizer que a maior lição que Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho. Por conseguinte, é urgente buscar e promover, juntos, os valores universais que traçam o caminho desta fraternidade humana.




As prisões não resolverão a depredação e a destruição feitas. É hora de exercitar a escuta ativa, identificar o que acontece atrás dessa cortina de interesses ao longo de décadas e construir novas realidades.




O hoje é resultado do ontem, mas, coletivamente, como nação, poderemos mudar o amanhã. Estes danos atingem a todos e todas neste país, independentemente da posição que ocupamos e, caso não ajamos com sabedoria, poderemos perder a oportunidade de avançar e restaurar.




O COMPROMISSO


E, de tal experiência, brotou mais forte a consciência que convida a todos, povos e nações, a colocar de novo no centro a palavra «juntos». Com efeito, é juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos.




E assim somos chamados a enfrentar, com responsabilidade e compaixão, os desafios do nosso mundo. Somente despendendo-nos nestas situações, com um desejo altruísta inspirado no amor infinito e misericordioso de Deus, é que poderemos construir um mundo novo e contribuir para edificar o Reino de Deus, que é reino de amor, justiça e paz.




Por isso com convicção, também nesta hora, continuamos a ter bem alto no nosso horizonte o sonho de “um mundo sem cárceres”, àquela estrela que, guiou os magos e que por caminhos diferentes do de Herodes deu enseio a uma nova humanidade, pluriétnica e pluricultural.




“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.” (Sun Tzu)


 


Fonte: Vera Dalzotto é assessora da PCr Nacional para a questão da Justiça Restaurativa, e Evanice Luiza Diedrich Schroeder é da assessoria de comunicação da Pastoral Carcerária do RS

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PCr Nacional para a questão da Justiça Restaurativa, e assessoria de comunicação da Pastoral Carcerária do RS

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