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21.Jan - O trabalho é uma unção de dignidade!
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 O trabalho é uma unção de dignidade!

Trabalhar, por quê? “Para uma plena realização da dignidade humana” exorta o Papa Francisco. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI) dedica seu capítulo VI ao trabalho humano. Ora, “o trabalho pertence à condição originária do homem e precede a sua queda; não é, portanto, nem punição nem maldição” (CDSI, n. 256); “deve ser honrado porque fonte de riqueza ou pelo menos de condições de vida decorosas e, em geral, é instrumento eficaz contra a pobreza (cf. Pr 10,4), mas não se deve ceder à tentação de idolatrá-lo, pois que nele não se pode encontrar o sentido último e definitivo da vida” (CDSI, n. 257).


A Doutrina Social ensina que o trabalho humano tem dimensão dúplice: objetiva e subjetiva. Objetivamente o trabalho “é o conjunto de atividades, recursos, instrumentos e técnicas de que o homem se serve para produzir, para dominar a terra” (CDSI, n. 270); e, subjetivamente, o trabalho expressa “o agir do homem enquanto ser dinâmico, capaz de levar a cabo várias ações que pertencem ao processo do trabalho e que correspondem à sua vocação” (CDSI, n. 270). Ademais, o trabalho humano possui “uma intrínseca dimensão social” (CDSI, n. 273) e é também “uma obrigação, ou seja, um dever do homem” (CDSI, n. 274), pois, “confirma a profunda identidade do homem criado à imagem e semelhança de Deus” (CDSI, n. 275).


A missão apostólica e laboral, primeira, da Igreja é evangelizar. Trabalha-se, à luz do Evangelho, para que toda comunidade humana e a Casa Comum tenham vida e, não qualquer vida, mas plena, abundante (Jo 10,10). Considerando ser essencial à Igreja, Povo de Deus, alcançar a plena realização da dignidade humana, é salutar articular-se metodologicamente em seu trabalho de evangelização. Francisco pondera que para “sermos apóstolos eficazes hoje”, caminhando juntos(as), três palavras ajudam a nortear, pedagogicamente, nossa práxis pastoral: Ver, Julgar (discernir) e Agir.


Ver, isto é, observar a realidade, o trabalho, os estudos, a história é um primeiro passo metodológico e pastoral importante à digna vida dos sujeitos. “Consiste em se deter para observar os acontecimentos que formam nossas vidas, o que constitui a nossa história, as nossas raízes familiares, culturais e cristãs”, expressa Francisco. “Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa” (FrT, n. 249). Como vislumbramos, hoje, a realidade do trabalho, especialmente juvenil?


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em recente pesquisa, aponta que no Brasil há 14,8 milhões de pessoas desempregadas, o que representa 14,7% da população economicamente ativa. Neste contexto, o índice ligado aos jovens é maior. 46% da população com idade entre 14 e 17 anos buscam um espaço de trabalho, sendo que os(as) jovens de 18 a 24 anos somam 31% da população desempregada. Segundo dados recopilados pela Oficina Internacional do Trabalho (OIT), no primeiro trimestre de 2021, a taxa média de jovens, entre 15 e 24 anos, desempregados chegou a 23,8%. O Brasil, no terceiro trimestre de 2021, registrou 12,6% de desempregados(as), o que implica 13,5 milhões de cidadãos em busca de trabalho, aonde a população jovem, em grande maioria, segue à margem deste mercado.  


Torna-se fundamental, para além de constatar, de ver tal contexto sócio econômico e político, peregrinar caminhos sociopastorais no processo de evangelização e acompanhamento do povo, quiçá, da juventude. Que sentimentos, preocupações, dúvidas, sonhos são recorrentes, ou não, na vida cotidiana destas pessoas? “Muitas vezes a procura de um trabalho torna-se tão dramática que são levados ao ponto de perderem toda a esperança e desejo de vida. Nestes tempos de pandemia, muitas pessoas perderam os empregos e algumas, esmagadas por um fardo insuportável, chegaram ao ponto de cometer suicídio”, lembra Francisco. 


Sabe-se que “o trabalho é um direito fundamental e é um bem para o homem: um bem útil, digno dele porque apto a exprimir e a acrescentar a dignidade humana” (CDSI, n. 287). Discernir tal dimensão, à luz da sagrada escritura, compõe parte integrante da missão apostólica da Igreja junto ao povo no caminho de evangelização. Ao fazer referência ao trabalho do jovem moço de Nazaré, Jesus Cristo, a saber, os evangelistas Mateus e Marcos o apresentam, tal qual José, como “carpinteiro” (Mt13,55; Mc 6,3). O termo grego “Tekton” para referir-se à obra de José e Jesus, consequentemente, fora traduzido de maneira ampla, também pelos Padres Latinos da Igreja, como sinônimo de carpinteiro/marceneiro, ou seja, toda significância da dignidade laboral fora expressa por uma palavra, porém, seu alcance é maior.  


O trabalho realizado outrora ou no tempo presente, “representa uma dimensão fundamental da existência humana como participação na obra não só da criação, mas também da redenção” (CDSI, n. 263). Na dimensão socioeclesial o trabalho é expressão da plena humanidade da pessoa, na sua condição histórica e transcendental. Segundo Francisco, “o trabalho não é apenas um meio de ganhar a vida: é também um lugar onde nos expressamos, nos sentimos úteis e aprendemos a grande lição da realidade, o que ajuda a vida espiritual a não se tornar espiritualismo. Infelizmente, porém, o trabalho com frequência é refém da injustiça social e, em vez de ser um meio de humanização, torna-se uma periferia existencial”.


Que fazer, portanto? A observância da realidade contextual e o processo consciente de discernimento, à luz dos textos bíblicos, convida ao agir. A ação nutre a essência da práxis pastoral sociotransformadora e, por isso, requer dados, planejamento, objetivos e metas passíveis de realização. O agir no peregrinar da evangelização instiga à missão criativa de “encorajar a ação de Deus nos corações, adaptando-se à realidade em constante mudança” (Papa Francisco). Pelo agir laboral, por exemplo, cada pessoa, cada grupo humano, constrói sua dignidade enquanto sujeito capaz de garantir “o pão nosso de cada dia”; e, como diz Francisco: “o que dá dignidade é ganhar o pão. Se não damos ao nosso povo, aos nossos homens e mulheres a capacidade de ganhar o pão, isso é uma injustiça social naquele local, naquela nação, naquele continente”. Neste ínterim, “os problemas do emprego chamam em causa as responsabilidades do Estado, ao qual compete o dever de promover políticas ativas do trabalho” (CDSI, n. 291).


Por fim, é tarefa importante à ação evangelizadora e sociotransformadora eclesial ser ponte de diálogo e testemunho, rememorando às instituições, ao Estado suas responsabilidades no zelo pelo bem comum. Se à Igreja compete primeiramente evangelizar, e trabalhar “para uma plena realização da dignidade humana”, também “os governantes devem dar a todos a possibilidade de ganhar o pão, pois isso dá a eles dignidade. O trabalho é uma unção de dignidade e isso é importante” (Papa Francisco).


 


 


Padre Leandro de Mello

Padre Leandro de Mello

Pároco na paróquia São Francisco de Assis e Assessor da Pastoral da Juventude

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