Arquidiocese de Passo Fundo
 
 
História
História

As raízes históricas da Arquidiocese de Passo Fundo remontam aos primórdios do século XVII. Naquele tempo longevo, a região da atual Passo Fundo, cenário das missões jesuíticas junto aos povos indígenas, encontrava-se dividida pela linha do Tratado de Tordesilhas, que separava o território português do espanhol. Nas proximidades da atual Passo Fundo, o padre diocesano Francisco Ximenes, com apoio do cacique Guaraé, ergueu a Redução de Santa Tereza (1632), que, infelizmente, foi dizimada pelos Bandeirantes (1637).

Mais de um século depois, na localidade ainda hoje denominada Campo do Meio, foram lançados os alicerces da atual Arquidiocese de Passo Fundo, com a instalação de uma primeira comunidade dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição (1775). Esta comunidade pertence atualmente à paróquia Santo Antônio, de Gentil. Nesta terra, então, vieram habitar portugueses e africanos escravizados, uma vez que na colônia – e depois, no império – a escravatura era legal. Na segunda metade do século XIX em diante, chegaram migrantes europeus – alemães, italianos, poloneses e outros – com seus costumes, tradições e religiosidade.

A Diocese de Passo Fundo foi criada em 10 de março de 1951 e elevada à Arquidiocese em 13 de abril de 2011. Em 2021, comemorou-se 70 anos de criação da Diocese e 10 anos de sua elevação à Arquidiocese com vários eventos distribuídos ao longo do ano. Neste texto de resgate histórico, comentaremos, primeiramente, aspectos das raízes históricas e, em seguida, apresentaremos uma “memória” do processo da ação evangelizadora desde a criação da Diocese, usando, para isto, quatro palavras chaves: Palavra, Pão, Caridade, Missão.



1- A aspiração da “terra sem males”

O território que hoje constitui a região de Passo Fundo no Estado do Rio Grande do Sul fez parte da célebre Província Jesuítica das Missões Orientais do Uruguai. Foram seus primeiros habitantes, indígenas Tupi-Guarani e, posteriormente, do grupo Jê, com destaque para os Kaigangs, chamados de coroados pelo colonizador europeu.



Na redução ou na comunidade de Santa Tereza do Ygaí (hoje Passo Fundo e arredores), terra do cacique Guaraé, quatro mil guaranis, em 1637, foram aprisionados pelos bandeirantes. O Pe. Francisco Ximenes tentou o resgate, mas a soma era impossível para os missionários pobres. Na Missa, do púlpito, o padre denunciou as injustiças e as crueldades. Os bandeirantes ouviram como se não fosse para eles. Concordaram em libertar os dois coroinhas... Nada obtendo, os dois padres enterraram os vasos e paramentos litúrgicos e partiram (cf. relato do Pe. Montoya). E assim terminou uma experiência de evangelização que se mostrava promissora uma vez que havia um encontro entre a aspiração indígena da Yvy Marã Ey – a “terra sem males” – e o anúncio do Reino de Deus – Reino de fraternidade, de justiça, de amor, de graça e de paz.



2- No rastro dos tropeiros erige-se uma nova unidade eclesial

O nome da cidade de Passo Fundo remonta ao século XVII. Para evitar os percalços da antiga estrada que, passando por Viamão e Santo Antônio da Patrulha, rumava em direção às terras paulistanas, abriram-se novos caminhos que cruzavam pelas terras dos pampas. Os tropeiros optaram por adentrar pela campanha, ainda deserta, percorrendo assim um trajeto menos sinuoso entre o Sul riograndense e São Paulo e vice-versa. A designação do vau, ou seja, do riacho de águas rasantes que permitiam passar a pé, chamado de “Passo”, estendeu-se ao respectivo rio e ao lugar de sua localização, um pequeno aglomerado de casas, formado junto à estrada, dando assim origem à atual cidade de Passo Fundo1.



O rio Passo Fundo foi sempre um marco referencial importante para a passagem dos tropeiros que abriram esse novo caminho para encurtar o trajeto até a feira de Sorocaba e das Minas Gerais. Assim esse novo caminho valentemente desbravado uniu a região das Missões ao centro do País2. Em 1827 e 1828, chegaram os primeiros habitantes brancos, com famílias constituídas, fazendo-se acompanhar de escravos e agregados.



O setor de comunicação social da Prefeitura de Passo Fundo assim descreve esse rio:

"O rio Passo Fundo foi testemunho de todos os momentos da nossa história. Viu chegar o índio, se aproximar o bandeirante explorador, o interessado povoador, o trabalhador imigrante, viu passar o tropeiro, chegar o cargueiro, se instalar o comerciante, mais tarde o industriário, o estudante e todos os demais que vieram somar esforços para construir esta terra hospitaleira. Se o rio pudesse falar ele diria tudo o que ele presenciou por aqui: o início do povoamento, a implantação do progresso e a busca do desenvolvimento e do bem estar de seus habitantes"3,

e, contraditoriamente, poderia revelar a marginalização e a opressão que caiu e recaiu sobre os povos originários e daqueles que, puxados pelo cabresto do patrão, foram qualificados como escravos.



Território de grande riqueza natural, com vantajosa situação geográfica e dispondo, além disso, de bons campos para a criação de gado e vastíssimos ervais para o fabrico do mate, rapidamente expandiu-se, tornando-se um importante centro pastoril e ervateiro do Rio Grande do Sul.



A organização econômica, social e política, dominante nesta fase inicial do povoamento (não oficial) pode ser qualificada por suas principais características como latifundiária, pastoril, patriarcal-militar e escravocrata. É importante

"não esquecer que as tradições culturais e religiosas, a cidade de Passo Fundo, guardam vínculos muito fortes com o período da escravidão negra. Certamente, há muitas dívidas a pagar. Há preconceitos não superados, atitudes de subordinação não conscientizados e uma história não lida. No ano em que houve a emancipação política do município de Passo Fundo (1857) 20% da população era escrava"4.



2.1- Cabo Neves e Igreja: lançada a pedra fundamental da nova Igreja

No rol dos primeiros migrantes brancos, o Cabo Neves teve posição especial. Em recompensa pelos serviços prestados ao império recebeu uma gleba de terra na região onde hoje se localiza a Praça Almirante Tamandaré, dando-lhe o nome de “Gleba Nossa Senhora da Conceição”. Nessa época, aproximadamente, 50 famílias residiam nos arredores.



O Cabo Neves e sua esposa doaram à Igreja Católica um terreno para que fosse construída uma capela. No ano de 1834 veio de Porto Alegre a licença para levantá-la. Esta foi inaugurada em 23 de agosto de 1835, no lugar onde, atualmente, se localiza a Catedral Nossa Senhora Aparecida: “A doação de um terreno para a construção de uma capela por parte do Cabo Neves mostra a relação cultural existente entre a Igreja Católica e os colonizadores oriundos de São Paulo que aqui se estabeleceram, trazendo em suas bagagens as bases culturais que permitiram a organização da cidade”5.



No dia 26 de novembro de 1847, dois anos após a capela ser reformada, foi criada a Paróquia como “Freguesia Nossa Senhora da Conceição Bem Aparecida de Passo Fundo”6, elevada, então à condição de Matriz Paroquial. Por ocasião da instalação do município de Passo Fundo, em 7 de agosto de 1857, de comum acordo, as autoridades civis e religiosas escolheram Nossa Senhora da Conceição como padroeira do município.



2.2- Caminhos de religiosidade na região

Novas comunidades foram nascendo na região e estas pertenciam à Paróquia Nossa Senhora da Conceição. Por isso, ainda hoje é chamada de “Igreja Matriz”, ou seja, “Igreja Mãe”. Surgiram comunidades ao longo do caminho dos tropeiros que vinham de São Paulo para buscar animais na região das Missões: Comunidade de Santa Teresinha, em Pinheiro Marcado – Carazinho (1870); São Miguel, em Passo Fundo (1871); Bom Jesus, em Carazinho (1872); Nossa Senhora dos Navegantes, em Tapera (1874); São João Batista, em Coxilha (1880); e São Bento, em Carazinho (1883).



Neste período, também começam a surgir comunidades na região de migração italiana, especialmente em torno dos atuais municípios de Guaporé (1884) e Casca (1904). A proliferação de novas comunidades nas “colônias” foi tão intensa que em 1897, foi criada a Paróquia de Santo Antônio (atual Guaporé) e, em 1905, já era desmembrada da mesma a Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Serafina Correa. Por sua vez, Casca passou a ser Curato (1907) e Paróquia (1921), sendo que em 1925 já era desmembrada a Paróquia de São Domingos do Sul.



Nas últimas décadas do século XVIII surgiram comunidades em todas as direções da atual Arquidiocese. Na primeira metade do século XIX, várias delas formaram as novas paróquias: Itapuca (1917), Não Me Toque (1919), Marau (1920), Dois Lajeados (1921), Pulador/União da Serra (1922), Tapejara (1926), Carazinho e Sarandi (1928), Colorado (1929), Tapera (1932), Vila Maria (1933), Charrua (1935), Rondinha (1936), Montauri (1937), Evangelista/Casca (1937), Selbach e Vila Oeste/União da Serra (1938), Sertão (1939), Camargo (1941), Água Santa (1943), David Canabarro (1944), Santa Terezinha/Passo Fundo (1945) e São Valentim do Sul (1946).



No final do século XIX, a Matriz Nossa Senhora da Conceição foi transferida para a atual Rua Uruguai, em frente à Praça Tamandaré. Na coxilha, local anterior de sua construção, foi erguida a Capela Nossa Senhora Aparecida. Com a construção do novo templo e com a criação da Diocese de Passo Fundo, a capela se tornou Paróquia (1950) e Catedral Diocesana (1951). Em 2011, tornou-se Catedral Metropolitana.



3- A criação da Diocese de Passo Fundo e a sua elevação à Arquidiocese

Em 10 de março de 1951, o Papa Pio XII, por meio da Bula Si qua dioceses, criou a Diocese de Passo Fundo abrangendo a região de Passo Fundo e Erechim, sendo designado como primeiro Bispo Dom João Cláudio Coling. A nova circunscrição eclesiástica foi desmembrada da Diocese de Santa de Santa Maria, tornando-se sufragânea da Arquidiocese de Porto Alegre. Antes de 1951, nossa região pertenceu à Diocese do Rio de Janeiro (1676), sendo “disputada” pela Diocese de São Paulo (1745) até que, por determinação superior, foi “devolvida” para o Rio de Janeiro (1747). Depois pertenceu à Diocese do Rio Grande do Sul (1848) e, com a criação da Diocese de Santa Maria (1910), parte do território atual pertenceu a esta última e outra à Arquidiocese de Porto Alegre.



Em 1959, foram anexadas à Diocese de Passo Fundo algumas paróquias da região de Guaporé que na ocasião pertenciam à Diocese de Santa Maria ou à Arquidiocese de Porto Alegre. Em 1971, toda a região de Erechim desmembrou-se de Passo Fundo para se tornar a Diocese de Erexim. Deste modo, algumas Paróquias que fizeram parte da Diocese de Passo Fundo, atualmente pertencem à Diocese de Erexim: Getúlio Vargas (1911), Áurea (1915), São José/Erechim (atual Catedral - 1919), Gaurama (1919), etc. Aconteceram, ainda, pequenas mudanças de território, com anexações ou cedências de paróquias, especialmente nos limites com as dioceses vizinhas de Frederico Westphalen e Cruz Alta.



O Concílio Vaticano II (1962-1965) e a II Conferência Episcopal Latino-Americana, realizada em Medellín – Colômbia (1968), demarcaram novos horizontes para a ação pastoral da Igreja. A introdução do documento síntese dos debates que se realizaram nesta conferência inicia dizendo que a

"Igreja latino-americana, reunida na II Conferência Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico. Assim sendo, “não se acha desviada”, mas “voltou-se para” o homem, consciente de que para conhecer Deus é necessário conhecer o homem”. Pois Cristo é aquele em quem se manifesta o mistério do homem; procurou a Igreja compreender este momento histórico do homem latinoamericano à Luz da Palavra, que é Cristo. Procurou ser iluminada por esta palavra para tomar consciência mais profunda do serviço que lhe incumbe prestar neste momento"7.



Em 13 de abril de 2011, o Papa Bento XVI elevou a Diocese de Passo Fundo à Arquidiocese, passando a ser Sé Metropolitana da Província Eclesiástica de mesmo nome e tendo como sufragâneas as dioceses de Vacaria, Frederico Westphalen e Erexim. Foi nomeado como primeiro Arcebispo Metropolitano, o então já terceiro Bispo Diocesano, Dom Pedro Ercílio Simon. O atual Metropolita, Dom Rodolfo Luís Weber é o quinto Bispo Diocesano e o terceiro Arcebispo Metropolitano. A Arquidiocese de Passo Fundo faz parte do Regional Sul III, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Seu território atual envolve 47 municípios, 53 paróquias e 865 comunidades.



4- “Povo de Deus, Igreja viva edificamos!”

Em 2021, com o tema “Povo de Deus, Igreja viva edificamos!”, um programa comemorativo foi realizando em torno dos 70 anos da criação da Diocese de Passo Fundo e os 10 anos da elevação à Arquidiocese. Na ocasião, algumas comunidades fizeram resgate histórico, inclusive conversando com os anciãos – alguns fundadores – de comunidades eclesiais. A Coordenação Arquidiocesana de Pastoral e a Equipe Arquidiocesana de Liturgia fizeram uma síntese da história, considerando os “Quatro Pilares” das comunidades cristãs indicados do livro dos Atos dos Apóstolos e nas Diretrizes da CNBB 2019-2023. Abaixo, transcrevemos parte da síntese.



4.1- Pilar da Palavra

Desde o início da Diocese de Passo Fundo, pastores e outras lideranças dedicaram-se à dimensão formativa do Povo de Deus. Por isso, foram criados cursos de Bíblia, Teologia, Espiritualidade, Pastoral, Metodologia Pastoral, formação política, formação para jovens rurais e urbanos, para catequistas.



Uma atenção especial mereceu a formação para os seminaristas: para tanto, investiu-se na capacitação dos mestres, criaram-se os seminários Sagrado Coração de Jesus, em Tapera, Nossa Senhora de Fátima, em Erechim e, depois, Nossa Senhora Aparecida, em Passo Fundo, com comunidades de Filosofia e Teologia inseridas nas comunidades eclesiais e fundou-se a Itepa Faculdades (em parceria com outras Dioceses).



A Itepa Faculdades também colaborou muito na formação dos religiosos e religiosas, de leigos e leigas. Nos últimos anos, foi destaque a formação para lideranças através dos Cursos de Extensão. Durante a pandemia do coronavírus, a Itepa Faculdades promoveu e está promovendo cursos virtuais.



Ao longo dos anos, um belo trabalho foi feito pela Coordenação Arquidiocesana de Pastoral, conduzindo momentos formativos, assembleias de pastoral, formação litúrgica e produzindo dezenas de materiais formativos como os “Cadernos de Formação”, o jornal “Presença (Arqui)Diocesana”, o “Folhetão da Campanha da Fraternidade” e, recentemente, a reflexão em torno da elaboração de novos Diretórios da Arquidiocese de Passo Fundo.



Para 2022, está previsto o Lançamento do novo Diretório sobre o Sacramento da Ordem, o novo Diretório sobre o Sacramento da Unção dos Enfermos e o novo Diretório sobre a organização das comunidades eclesiais. Já foram elaborados dezessete Planos de Evangelização. Está acontecendo a fase Arquidiocesana do Sínodo “Por uma Igreja Sinodal: Comunhão – Participação – Missão”.



4.2- Pilar do Pão

Desde o início da Diocese, um dos pilares que recebeu muita atenção dos pastores e comunidades foram as celebrações. Para tanto, foram realizados muitos cursos de formação litúrgica e de canto litúrgico. Desde os primórdios, houve uma equipe arquidiocesana responsável para propor e atualizar a dimensão litúrgica. Durante o Vaticano II e após o Concílio milhares de cursos litúrgicos aconteceram capacitando para os novos ministérios de Animadores, Leitores, Salmistas, Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística, Ministros da Palavra e Ministros das Exéquias.



Milhares de pessoas ingressaram na Igreja através do Sacramento do Batismo e foram ungidas com o dom do Espírito Santo através do Sacramento da Crisma. Milhares de pessoas pediram a Deus perdão de seus pecados e buscaram viver uma vida de fraternidade, de paz e de amor com seus semelhantes e com a nossa Casa Comum, o planeta Terra, através do Sacramento da Penitência. Casais selaram a sua aliança de amor com Deus e com a Igreja através do Sacramento do Matrimônio. Tivemos dezenas de novos diáconos e presbíteros ordenados na Arquidiocese. Integrantes do nosso clero tornaram-se Bispos da Igreja Católica em outras regiões do país. Na hora da enfermidade e da doença, milhares de pessoas receberam o conforto e a consolação através do Sacramento da Unção dos Enfermos.



Milhares e milhares de Missas foram celebradas neste pedaço do Brasil desde que o Pe. Francisco Ximenes chegou aqui e fundou a redução de Santa Tereza. Inúmeras foram as celebrações, os cultos, as bênçãos, as procissões, as novenas, as romarias. Rezou-se através das Celebrações da Palavra, das Missas e demais Sacramentos e Sacramentais. Um grande destaque é a preparação para o Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira da Arquidiocese: no segundo domingo de outubro, a Igreja Arquidiocesana celebra, com devoção e amor, Àquela que nos pede: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. O livro de cantos e orações “Aleluia!” é um sinal da unidade arquidiocesana. Para comemorar os 70 anos da criação da Diocese e 10 de sua elevação à Arquidiocese, foi lançada uma nova edição – ampliada e renovada – deste precioso subsídio litúrgico e pastoral.



4.3- Pilar da Caridade

Todas nós precisamos uns dos outros. Por isso, a caridade é muito importante. Desde o início da Diocese, a caridade foi muito estimulada nas homilias e outros momentos formativos. Estimulou-se a vivência da caridade, a começar na família. Sabemos o quanto é importante cuidar e amar da própria família. Por isso, foram realizados processos formativos com o protagonismo familiar.



Também se praticou a caridade nas comunidades. Foram inúmeras as campanhas de alimentos, de roupas e de material de higiene. Grupos foram criados para promover o cuidado com a vida fragilizada. Em nível de Arquidiocese foram criadas instituições de assistência social, algumas ainda prestando relevantes serviços às comunidades.



A então Diocese administrou os bens da Fundação Lucas Araújo, abrindo espaço para creches e asilos; criou e manteve a Assistência Social Leão XIII e os Centros de Juventude. Criou o Hospital São Vicente de Paulo, instituição devotada ao cuidado da vida que, nestes tempos de pandemia se notabilizou pelo cuidado competente e misericordioso com os doentes. Criou a Socrebe e confiou às Irmã Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora o cuidado das crianças da Vila Santa Marta. Para atender às necessidades de recuperação de dependentes químicos trouxe para nossa região a Fazenda da Esperança. Numa instância de preocupação mais participativa, a então Diocese fundou Caritas Diocesana, que tem a missão de orientar e assessorar as Caritas Paroquiais. Foram fundadas outras entidades assistenciais confiadas aos cuidados de diversas congregações religiosas.



Integrantes das Pastorais Carcerária, da Criança, da Saúde, da Educação, da Juventude, das Migrações, da Pessoa Idosa, do Surdo e outras fazem gestos concretos de amor.



Como a verdadeira caridade se regozija com a justiça, a Igreja incentivou várias lutas populares, merecendo destaque o apoio à Reforma Agrária, especialmente na região de Ronda Alta. Não podemos esquecer que a Igreja Católica de Passo Fundo, sob a orientação do segundo Bispo Diocesano, Dom Urbano José Allgayer, comprou terra e fez reforma agrária em nossa região, inclusive, antes do governo. A presença de lideranças eclesiais junto aos acampados e assentados foi uma das marcas da Diocese e, por causa disto, recebeu críticas e difamações mas também foi elogiada e apreciada pela fidelidade à causa de Jesus, o Reinado de Deus (cf. Mt 5,1-12).



Esta Igreja particular também promoveu a formação para a cidadania, tendo participado ativamente das lutas pela redemocratização do Brasil nos anos 70 e 80, bem como participando no processo de elaboração da Nova Constituição, de 1988. Também colaborou na Campanha contra a fome e a miséria e em favor da vida que comoveu o nosso país antes da virada do milênio. Participou ativamente das Campanhas da Fraternidade, realizando o “Seminário da Campanha da Fraternidade” que reúne lideranças das comunidades. Nos últimos tempos, o Seminário tem acontecido nas nove Áreas Pastorais. Criou o Fundo de Solidariedade que já financiou 246 projetos com parcela da Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, em todas as paróquias.



Milhares de pessoas atuaram em diversas instituições educacionais, com uma presença ativa nas periferias, no ensino fundamental, médio e superior, em escolas públicas e particulares. A educação, através das Escola Católicas, além do cunho evangelizador, foi em parte responsável pela solidificação da cultura dos imigrantes. O apoio destas instituições educacionais à criação da Universidade de Passo Fundo (UPF), foi decisivo para sua expansão.



Houve atuação em instituições sindicais, de saúde, de políticas públicas, em movimentos sociais, exercitando os pilares da Doutrina Social da Igreja, ou seja, buscando defender a dignidade de cada vida humana, o bem comum, o cuidado com as pessoas pobres e a salvaguarda da nossa casa comum, o planeta terra.



Nos últimos anos, a Igreja de Passo Fundo tem intensificado a conscientização em torno do cuidado com a natureza, dando forças à agroecologia e a alimentação saudável. Hoje, o mundo vive um momento de virada político-econômica dolorosa e sangrenta, provocada pela pandemia sars-cov-2 (coronavírus). Junta-se a esta epidemia as guerras deflagradas por interesses fúteis. Neste contexto, o “retorno” ao Concílio Vaticano II e à Medellín-Aparecida renova o compromisso cristão de manter os olhares da Igreja fixos no mistério humano, com cuidado especial aos que são jogados nos “valos” da história. Este foi o princípio que orientou, nas décadas posteriores a 1960, a construção de novos caminhos para a realização da ação pastoral na Arquidiocese de Passo Fundo.



4.4- Pilar da Missão

Nestes 71 anos muitas atividades missionárias foram realizadas na Arquidiocese. Aconteceram diversas Missões Populares – que eram momentos fortes de conversão e renovação da fé. Na virada do Milênio uma nova perspectiva missionária ganhou força entre nós, ou seja, as Santas Missões Populares conduzidas por missionárias e missionários leigos locais. Nossa consciência missionária foi crescendo e hoje entendemos que a missão não é apenas algumas atividades religiosas que se faz de tempo em tempo, mas é a prática cotidiana do nosso Batismo, ou seja, testemunhar com a vida os valores do Reino de Deus.



Durante estas sete décadas, a missão recebeu impulso com a criação de grupos de jovens, grupos de famílias, inserção da vida religiosa consagrada nas periferias da cidade. Foi assumido o Projeto Igreja Irmã Diocese de Passo Fundo – RS e Diocese de Balsas – MA, além de outros projetos, como por exemplo, Igreja do RS e Moçambique, África. Tivemos a atuação do Conselho Diocesano Missionário (Comidi) que estimulou a Celebração do Mês Missionário Extraordinário nas paróquias, em outubro de 2019.



Nossos Planos de Ação Evangelizadora nos alertam para aquilo que o Papa Francisco vem dizendo: “precisamos ser uma Igreja em saída, em direção às periferias existenciais e sociais”. Este é um grande desafio para os próximos anos: formar comunidades nas periferias das cidades da nossa Arquidiocese, entre os mais pobres e fragilizados, a fim criarmos um mundo mais fraterno.



Deste breve e incompleto resgate e do reavivar a memória sobre a atuação do Povo de Deus da Arquidiocese de Passo nestes 71 anos de história, restam três certezas:

- que estamos sempre começando;

- que é preciso continuar;

- que seremos sempre interrompidos antes de terminar.


Referências bibliográfica



CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. A Igreja na atual transformação da América Latina. Conclusões de Medellín. Petrópolis: Vozes, 3ª ed, 1970.

SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Prefeitura de Passo Fundo. <> acesso 22.02.2022.

SIMON, Pedro Ercílio. Uma diocese chamada Passo Fundo. Passo Fundo. Editora Berthier, 2005.



Notas



1- Este texto passou por várias revisões ao longo dos anos e contou com a colaboração de várias pessoas e equipes: Prof. Selina Dal Moro, Pe. Ivanir Antonio Rodighero, Pe. Ivanir Antonio Rampon, Dom Urbano José Allgayer (in memoriam), Dom Ercílio Simon (in memoriam), Pe. Elli Benincá (in memoriam), Coordenações Arquidiocesanas de Pastoral, Equipes de Liturgia, Equipes de Comunicação, etc.



2- Confira a playlist de vídeos em comemoração aos 70 anos de criação da Diocese de Passo Fundo e 10 anos de sua elevação à Arquidiocese clicando neste link: https://bit.ly/3ClMdKB



Citações
1 Cf. Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura da Passo Fundo – Ascom.

2 “O rio que foi denominado Passo Fundo é o mesmo Uruguai - mirim do tempo dos Jesuítas” (Cf. Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de Passo Fundo).

3 Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de Passo Fundo.

4 Elli BENINCÁ – Lurdes DE DAVID. Introdução: A Igreja Católica na construção da cidadania passo-fundense, in Elli BENICÁ (org.). A Igreja Católica na construção da cidadania passo-fundense, p. 11.

5 Elli BENINCÁ – Lurdes DE DAVID. Introdução: A Igreja Católica na construção da cidadania passo-fundense, in Elli BENICÁ (org.). A Igreja Católica na construção da cidadania passo-fundense, p. 10.

6 Pedro Ercílio SIMON, Uma diocese chamada Passo Fundo. Passo Fundo: Berthier, 2005.

7 Medellín, nº 1.

* Texto atualizado em março de 2022.

 
 
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