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17.Abr - Tomé
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Tomé


No domingo, após a Páscoa, a liturgia apresenta o texto do Evangelho de João 20,19-31. São relatados dois encontros de Cristo ressuscitado com a comunidade dos discípulos, sendo que o primeiro está situado no dia da ressurreição e outro, oito dias depois, com a presença de Tomé.  É um texto provocativo que abre espaço para várias analogias com o tempo presente.


Por duas vezes, o texto registra que “as portas estavam fechadas” por medo. Os discípulos se trancaram por terem visto a morte violenta de Jesus e isto gerou insegurança e desamparo. “Fique em casa” está entre as expressões mais repetidas atualmente e deste modo você estará protegido do inimigo chamado coronavírus. Viver no medo gera uma série efeitos colaterais e dúvidas. Quem entrar na minha casa será que não trará o vírus? Quem é confiável? Sim, é preciso usar todos os meios de proteger-se, mas não transformar o infectado em inimigo.


No primeiro momento Tomé não estava presente e quando lhe contaram o encontro maravilhoso com o Cristo ressuscitado, ele reivindica a mesma oportunidade. Também quer ver o ressuscitado para crer. O testemunho dos outros não lhe era suficiente pois confiava mais nos cinco sentidos. Somente estes poderiam gerar convicção. É como dizer: “Vou acreditar no coronavírus, já que não o vejo a olho nu, somente depois que tiver experimentado os sintomas mais graves, inclusive ficar na UTI”. A nossa vida pragmática se fundamenta num sistema de credibilidade e somente uma pequeníssima parte do agir é fruto da experiência pessoal. É preciso crer na palavra do outro.


“Meu Senhor e meu Deus!” Tomé é modelo que visibiliza as dificuldades e dúvidas para se crer. Mas é alguém aberto que expressa as suas dúvidas e aceita humildemente as respostas. Depois de um processo, mesmo que sofrido, agora ele pode declarar Jesus Cristo ressuscitado como seu Senhor e Deus. O “Senhor” é aquele que tinha lavado os pés dos apóstolos e os dele também e anunciado a sua morte por eles como expressão de seu máximo serviço. Tomé reconhece o amor de Jesus e o aceita como Senhor, expressando sua total adesão ao Cristo. Também professa a divindade de Jesus Cristo que estava obscura na condição humana.


Com frequência, nestes dias de crise, escutamos que o “mundo será diferente” depois que estes dias difíceis passarem. Será? O que muda o comportamento das pessoas? As mudanças atuais são consequências de decretos, medo de ficar infectado, enfim de causas externas. Tomé mudou só depois que criou convicção ou despertou para a fé. Mudanças profundas e duradouras necessitam estar fundamentadas. Leis e decretos são guias úteis e necessários. Aos que creem em Cristo ressuscitado, a atitude de Tomé, serve para colocar em crise a fé monótona e morna e reafirmar a fé no “meu Senhor e meu Deus”. Duas exemplificações.


São necessárias e elogiáveis as inúmeras iniciativas de partilha de alimentos, materiais de higiene. Isto revela uma multidão de pessoas marginalizadas. As suas reservas são tão pequenas que em poucos dias lhes falta o essencial. Um “mundo diferente” necessita uma urgente distribuição de renda e de bens. A dignidade humana requer a partilha, a fraternidade que estão entre ensinamentos fundamentais de Jesus Cristo.


Outro exemplo: a crise mostra claramente que estamos vivendo numa “casa comum”. As fronteiras dos países, dos estados e municípios são necessárias para administrar o mundo e organizar a sociedade, mas não são muros de isolamento. “Um mundo diferente” clama pela globalização da solidariedade, de mecanismos mais eficazes de gerenciamento de emergências globais.



Dom Rodolfo Luís Weber

Dom Rodolfo Luís Weber

O arcebispo metropolitano de Passo Fundo, dom Rodolfo Luís Weber, escreve semanalmente artigos de opinião sobre temas diversos e latentes em nossa sociedade.

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