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08.Mai - Importância e crise da Utopia
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Importância e crise da Utopia


Utopia remete à ideia de uma sociedade ideal, humanitária, solidária, fantástica..., em que a vida se manifesta com toda a sua dignidade. É um horizonte que se transforma num projeto ainda inexistente, às vezes, tido como irrealizável, ou como fantasia, devaneio, ilusão, sonho sem viabilidade histórica. O termo “utopia” tem a sua origem na língua grega “ou+topos”, e significa, etimologicamente, “lugar que não existe”. 


Utopia do povo
Na Sagrada Escritura, no livro do Êxodo, encontramos a utopia de uma sociedade fraterna que se contrapõe à sociedade escravocrata. Ela é uma fonte que suscita sonhos e projetos, O povo do êxodo era um povo de grandes utopias: desejava uma terra onde corresse “leite e mel” (Ex 3,8) e traduziu este sonho num projeto histórico-libertador: sair do Egito, deixar a casa da servidão, ir ao deserto até ocupar a terra de Canaã.           


O Êxodo foi o fato básico do surgimento de Israel como povo de Deus. Um dos textos mais antigos do Primeiro Testamento é, na opinião de muitos exegetas, o credo do Dt 26,5-9, uma narrativa da história de libertação: “Meu pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e aí residiu com poucas pessoas, tornando-se uma nação grande, forte e numerosa. Os egípcios, porém, maltrataram e humilharam, impondo dura escravidão. Clamamos então a Javé, Deus de nossos antepassados, e Javé ouviu nossa voz.”


Projeto
Deus não só “suscitou” uma utopia, mas também um projeto para ser concretizado na história (Ex 3,7-10). Este Deus não é aquele do Faraó, mas Aquele que viu a aflição do povo, ouviu o clamor dos hebreus, conheceu o sofrimento deles (a escravidão não é fruto da sorte ou do acaso, mas da política adotada pelo Faraó), desceu para caminhar junto a eles (Deus assumiu as contradições que marcam a história a partir dos oprimidos) e os fez subir (conduziu-os à Terra Prometida) em vista da libertação.


A experiência do Êxodo descreve que a utopia tem uma grandeza aglutinadora e uma força transformadora, mas também o seu limite. A utopia como tal permanece como utopia, mas há algo que pode ser concretizado como terra dos cananeus, dos hititas... Esses locais serviram de mediações para atingir o objetivo final.


O povo, quando esqueceu a utopia, passou a sentir saudades da terra da escravidão, “das cebolas do Egito”: (Nm 11,4-6). Pouco conscientes, os ex-escravos não só tinham saudades do período da escravidão, mas continuavam esperando que outros lhes alimentassem e fizessem a história por eles. Os próprios líderes repetiram as práticas dos governantes escravizadores e necessitaram de ajuda (Ex 18, 17-19).


Reino de Deus
Jesus de Nazaré, num contexto bem posterior, usou a expressão "Reino de Deus” para nortear a grande utopia de sua vida. Ter como utopia o Reino de Deus (Mc 1,13-14), exige conversão e coragem para atuar nos momentos difíceis (Mc 1,14) e superar as tentações (Mc 1,12-13). Para Jesus de Nazaré o Reino estava próximo, mas ainda não na sua totalidade, porque ele deve constituir-se em utopia a ser construída continuamente. O antirreino reagiu contra a grande Utopia e decretou morte de Jesus para salvar os privilégios dos mediadores do antirreino (Mc 3,6). Porém, a coerência e a configuração de Jesus com Reino de Deus e a proximidade com o Pai – que o ressuscita – permitiu que os discípulos se refizessem mesmo no meio de conflitos.


O pontificado do Papa Francisco visa recriar a fé e a utopia cristã do Reino de Deus e da sua justiça. Padre Alfredo Gonçalves fala do intenso pontificado do Papa Francisco, afirmando: “por uma parte as encíclicas, exortações e mensagens tão simples, profundas e concretas quanto um olhar, um toque, um abraço, uma presença amiga; por outra parte, ações, visitas e gestos que valem uma encíclica, ou um tratado sobre a Boa Nova do Evangelho”. Porém, Francisco precisa do apoio das “bases” e das lideranças – não só dos agentes de pastoral da Igreja, mas de lideranças religiosas, políticas, populares, econômicas, culturais de todo o planeta. Diante de um cenário em que os “debaixo” são elevados, temendo o aplainamento das desigualdades, os privilegiados, mesmo que disfarçadamente, reagem contra o “projeto de Francisco”. Além disto, adensa-se a alienação com pessoas que aplaudem o Papa, mas não o compreendem – e até discordam – de seus posicionamentos.


Padre Ivanir Rodighero

Padre Ivanir Rodighero

Diretor da Itepa Faculdades e Reitor do Seminário Nossa Senhora Aparecida

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